Uma reflexão filosófica sobre a alegria como experiência corpo-afetiva, espiritual, relacional e revolucionária, atravessada por arte, educação e esperança.
Ao som da sinfonia nº. 9 de Ludwig van Beethoven, tenho instantes efêmeros, mágicos e potentes de alegria. A música tem essa força imponderável de suspender juízos e nos alimentar de um instante absolutamente único em estado de presença inteira. É assim com a alegria, ela mora no agora, é instante que nos foge e escapa, sem precisar pensar sobre ela. Como nos diz a letra de Ode à alegria de Friedrich Schiller: “Alegria, formosa centelha divina, filha de Elysium, ébrios de fogo, entramos em teu santuário celeste”, ela é delírio do poeta, êxtase inebriante de um fugaz aqui e agora irrecuperável, é da ordem de uma saber-sabor (sapere) para além de sentidos puramente lógicos, centelha divina a nos arrebatar aos mundos possíveis de nossos sonhos e desejos. É uma certa loucura não psiquiátrica, pois não precisa de remédios ou tratamentos, é delírio desejante, um delírio dos (as) poetas, dos (as) artistas, dos (as) contemplativos, daqueles e daquelas que se propõem a suspender razões analíticas em situações e momentos absolutamente ordinários da vida cotidiana. Ela está muito próxima, basta ter olhos para ver e sentidos para sentir: numa rosa do jardim, no pôr do sol visto pela janela de casa, na brincadeira com o cachorro, no lavar das louças, na sala de aula, numa conversa com os amigos, num sono tranquilo, numa relação sexual, na leitura de um livro, num filme, na escrita de um projeto, etc. Ela nos provoca uma ressignificação dos sentidos e significados das potências mais ordinárias do cotidiano fugaz. A vida pulsa no ordinário da existência humana, nos pequenos detalhes. Como nos afirma Campello (2018, p.146) “A alegria é breve, é a embriaguez de um encontro, encontros que chamamos hábitos porque às vezes nem os percebemos, nem os sentimos, eles estão aí, são breves, mas são belos e sensíveis”. Portanto, quando pensamos, escrevemos e falamos sobre a alegria estamos refletindo sobre a alegria enquanto experiência humana corpo-afetiva-espiritual-relacional. A experiência é um encontro com algo que se experimenta, que se prova, que temos contato. Como nos diz Larrosa (2002, p. 20-26) “ a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que passa, não o que acontece (...) é suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade”. Ou seja, quando falamos de alegria enquanto experiência humana não falamos do que acontece, ou o que passa, não é simplesmente uma explicação conceitual do que é, mas o que nos afeta e nos atravessa. Uma experiência que se materializa no corpo, mas não somente um corpo biológico que se manifesta por meio da síntese do quarteto hormonal da felicidade: endorfina, serotonina, dopamina e ocitocina. Mas trazemos a alegria enquanto acontecimento nesse corpo relacional, corpo-coletivo, nas corporeidades de cada ser. É maneira como eu manifesto esse acontecimento no aqui e agora. Como experiência de uma corporeidade em movimento, que encontra no deslocamento, formas de ressignificação da própria existência, a alegria é em si, uma experiência revolucionária, pois não consegue se comprazer apenas com a posse, ou a compra de objetos, por padrões vendidos e manipulados pelas grandes corporações industriais do sistema mundo capitalista. De natureza poética e da suspensão de mim mesmo ou da minha razão analítica instrumental, ela me permite ir além, pertencer a outras esferas de racionalidades: espiritualidade, a corporeidade, a arte, a afetividade, os afetos, os sentimentos... É potência de inteireza, uma experiência corpo-afeto que me liga ao centro de mim na relação com o mundo, com as pessoas, com as plantas, as águas, com os bichos, com os acontecimentos. Ela está, portanto, também implicada enquanto pulsão de vida coletiva. Está, por assim dizer, para além de uma simples realização pessoal, pois surge como substância inerente à condição humana em relação, em correspondência. Por isso, o sujeito na alegria é sempre coletivo, pois nas relações e nos encontros é que vamos nos constituindo gente. Mais do que uma simples emoção isolada ela tece as teias da conexão e comunhão humana, um catalisador poderoso para a construção de relacionamentos significativos. A alegria também atua como um bálsamo nas relações interpessoais, suavizando as arestas das interações cotidianas. A partilha de momentos alegres cria memórias compartilhadas que perduram ao longo do tempo, fortalecendo os laços afetivos. Seja em uma conversa descontraída, uma refeição compartilhada ou em celebrações festivas, a alegria se torna a cola que une as experiências humanas. Ao experimentar a alegria juntos, as pessoas se tornam coautoras de narrativas de felicidade. Essas narrativas não apenas enriquecem as relações presentes, mas também contribuem para a construção de um legado emocional que perdura. A alegria, assim, transcende a individualidade, transformando-se em um fenômeno coletivo que enriquece a experiência humana. É uma ética e uma estética dos afetos que nos mobiliza a uma potência do agir na força criadora e comovedora dos encontros. E esse encontro não é necessariamente ou tão somente com humanos, mas com todos os seres viventes e ditos “não-viventes” fundamentado a partir de uma perspectiva eco-relacional de Figueiredo (2007) que compreende o mundo e a vida numa dimensão integrativa das relações “sejam elas humanas, sociais ou ecológicas, considerando a relevância de relações não antropocêntricas” (FIGUEIREDO, 2004, p.18). O conceito de alegria, portanto, por nós aqui empreendido, retrata “o interativo de tudo com tudo e toda a totalidade. (...) O termo ‘eco’, reforça a conjuntura ecossistêmica, as interações sociais entre o vivo e o considerado não vivo da natureza” (FIGUEIRED0, 2007, p.59-60). Assim, as forças propulsoras da alegria estão se deslocando continuamente por meio de interações com o Universo, forjando novos olhares, rupturas, subversões, emaranhamentos relacionais de diversas dimensões, captando nossa essência humana em conexões com energias vibracionais multidimensionais. É um individual-coletivo de natureza eco-relacional como força revolucionária e transgressora de um bem viver comum. Muito mais que uma euforia em contraponto com a tristeza, a alegria é uma instância que nos eleva e está acima desta dualidade: euforia e tristeza. Sua natureza está no contrafluxo de um projeto neoliberal, capitalista, mercadológico, de pura satisfação consumista, individualista ou egocêntrica. Alegria como uma experiência de esvaziamento, despojamento e de subversão às grandes lógicas coloniais do ter, do ser e do existir. Como na música do cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso, que em plena ditadura militar no Brasil diz: “caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento”, a alegria aqui como um ato de coragem. Coragem de continuar (re) existindo apesar de toda violência e injustiça. Pensemos, por exemplo, na alegria da escrita de uma das mais importantes escritoras negras da literatura brasileira: Maria Carolina de Jesus. Uma mulher pobre, negra, favelada, empregada doméstica, catadora de lixo. E foi ali, por entre papeis reciclados, lixos, pouca iluminação, ao som de sirenes e menino chorando nos casebres ao lado, que sua alegria forjou memórias, poesias, histórias e canções. Sua narrativa trouxe o cotidiano periférico como maneira de olhar a si e a cidade. Sua escrita tem sabor de um saber apaixonado que conseguia transformar o cotidiano mais ordinário em extraordinário. Sua poética é revolucionária porque sua alegria vem desse lugar do que não é possível, ou do que não deveria ser possível e irrompe como força transgressora do ser mais. Ela subverte toda ordem do sistema-mundo capitalista que quer invisibilizar e subalternizar as pessoas negras, pobres e menos favorecidas socialmente. Desta maneira, a alegria transborda e irrompe com outras narrativas, provocando energia mobilizadora de criatividade, integração e transformação social. A alegria, quando compartilhada e celebrada coletivamente, cria um senso de comunidade e pertencimento. Essa conexão emocional fortalece os laços sociais e desafia estruturas de exclusão, promovendo a inclusão e a diversidade. A celebração coletiva da alegria torna-se uma ferramenta poderosa para combater a alienação e construir uma sociedade mais justa e solidária. Além disso, a alegria funciona como uma antítese ao desespero, fornecendo uma fonte renovadora de energia para enfrentar desafios sociais. Movimentos sociais alimentados pela alegria tornam-se resistentes e persistentes, impulsionando a mudança mesmo em face de adversidades aparentemente insuperáveis. A esperança gerada pela alegria se transforma em combustível para a perseverança, a resiliência e a resistência. Por isso, quando falamos em alegria falamos num projeto de educação que recupere a alegria na escola como acontecimentos de uma revolução permanente entre crianças, adolescentes, jovens e adultos. Para Freire (2004), o processo de ensino e aprendizagem não é destituído de arte, de beleza, de alegria, de encontro, de relação, de afetividade, antes são expressões de uma educação politicamente amorosa, afetivamente integrada e alegremente vivida.
É falso também tomar como inconciliáveis seriedades docente alegria, como se a alegria fosse inimiga da rigorosidade. Pelo contrário, quanto mais metodicamente rigoroso me torno na minha busca e na minha docência, tanto mais alegre me sinto e esperançoso também. A alegria não chega apenas no encontro do achado mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria (FREIRE, 2004, p. 142).
A alegria, portanto, para Freire, está relacionada à esperança, ao gosto pela vida e aos processos de transformação social. Um inquieto prazer e alegria em amar o mundo, as pessoas e, por isso, negar toda e qualquer forma de desumanização e injustiça social. Em Freire, as práticas educativas devem ser afetivas, amorosas, belas, o que não exclui em nada a rigorosidade metódica em estudar, em ser crítico e consciente. O saber deve ser sabor, gosto, júbilo, contentamento. Já em Gadotti (2000, p.9) a felicidade e alegria na escola não deveria ser “uma questão de opção metodológica ou ideológica, mas sim uma obrigação essencial dela”. O que nos leva a crer que diante de uma indagação do (a) professor (a) ao aluno (a), a pergunta não se resuma a se ele (a) entendeu, mas o que sentiu. Quais os sentimentos diante de um texto, diante de um fato histórico, diante de um filme. Ou seja, os afetos e os sentimentos são instâncias do pensamento racional. Os conteúdos presentes nos componentes curriculares devem mobilizar o maior número de racionalidades existentes da condição humana: sinestésica, afetiva, emocional, cognitiva, corporal, social e política. O processo educacional, portanto, deve favorecer o pensamento criativo e criador dos (as) estudantes, potencializar a imaginação e os sentidos humanos para avistarem mais longe. Educar para a beleza que se encontra adormecida em cada um de nós, eis a missão das escolas. A educação da qual acreditamos, portanto, comporta e integra a arte, a beleza, a ética, a alegria “há espaço para o lúdico, para o brincar, para a afetividade, para as corporalidades, para o autoconhecimento nas relações” (MESQUITA, 2023, p.73). E tudo isso para vislumbrar um outro mundo possível, não se conformar com as injustiças, não se adaptar às realidades socialmente construídas. Deixar emergir a dimensão da alegria transformadora e revolucionária da existência humana, pois “no mundo da história, da cultura, da política, constato não para me adaptar, mas para mudar. Pois o mundo não é. O mundo está sendo”. (FREIRE, 2004, p.74). E nesta direção, seguimos ébrios de amor pela vida, pelas mudanças necessárias e emergentes, potentes e vinculados uns aos outros e outras como legítimos outros e outras, anunciando, denunciando e enunciando novos modos de viver compartilhados. Assim nos diz Clarice Lispector em sua obra Água viva:
Mas eu denuncio. Denuncio nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer – e respondo a toda essa infâmia com – exatamente isso que vai agora ficar escrito – respondo a toda essa infâmia com a alegria. Puríssima e levíssima alegria. A minha única salvação é a alegria. Uma alegria atonal dentro do it essencial. Não faz sentido? Pois tem que fazer. Porque é cruel demais saber que a vida é única e que não temos como garantia senão a fé em trevas – porque é cruel demais, então respondo com a pureza de uma alegria indomável. Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou – apesar de tudo oh apesar de tudo – estou sendo alegre neste instante já que passa se eu não fixá-lo em palavras. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta. Amor impessoal, amor it, é alegria: mesmo o amor que não dá certo, mesmo o amor que termina. E a minha própria morte e a dos que amamos tem que ser alegre. Não sei ainda como, mas tem que ser. Viver é isto: a alegria do it. E conformar-me não como vencida, mas num alegro com brio. (LISPECTOR, 1973, p.93-94)
Clarice nos ajuda a compreender que a alegria é demolidora de sistemas, uma decisão de vida, de recriação e ressignificação da nossa coexistência na Terra. Não se deixar vencer pelo horror alucinante da morte, não se deixar entregue ao conformismo de um determinismo ambiental, mas decidir pela vida e por toda sua potência criadora. Assumir essa alegria atonal, ébria como instante de perigo, risco, emergência e insurgência. É uma alegria em passos, em movimento, em trilha, em processo de travessia, da busca do ser mais que me dão alegria dos dias que seguem. Não é apenas resultado do achado, não é no fim, mas no percurso onde posso encontrar as belezas e bonitezas que me dão alegria de vitalidade. Nela me movo e comovo... nela me expresso como sou e suspendo juízos que me cobrem a cabeça! E como menino viajor, cantarei de alegria essa existência transcendente, transdimensional, transcultural, eco-relacional, reencantando o olhar na imanência do cotidiano. E quando chegar minha hora de partir, dançarei e cantarei um Ode à alegria, me unirei à Beethoven, Schiller, Carolina de Jesus, Paulo Freire, e com eles brindarei a vida transmutada, beijarei a morte como o jogo escuro das ilusões, compartilhando com ela boas gargalhadas de tudo vivido. Irmanado com a Pachamma entoarei um hino à fraternidade pluriversal e direi sem medo: minha alegria é imortal, imortal.
Por: José Rinardo Alves Mesquita