A Identidade Pessoal

Uma reflexão filosófica sobre o que define nossa identidade ao longo do tempo, articulando memória, mudança, permanência e performatividade.

FilosofiaLeitura moderada

A IDENTIDADE PESSOAL: O QUE DEFINE NOSSA IDENTIDADE AO LONGO DO TEMPO? SOMOS OS MESMOS AO LONGO DE NOSSAS VIDAS?

Numa manhã qualquer, ao olhar para minha imagem estampada e congelada no feed do Instagram ou mesmos nas fotos publicadas em períodos diversos com meus vários corpos, cores, texturas, pesos e filtros, fico a me perguntar: quem é esse eu? O que se projeta nas telas e nas redes sociais sou eu mesmo ou uma perspectiva que quero dar? O que me define? O que essa imagem ou imagens revelam de mim mesmo ao longo do tempo? Há mudança nisso tudo? O que seria essa identidade: algo fixo ou mutável?

Essa avalanche de perguntas inquietas e transbordantes, longe de ser apenas uma mera elocubração digital, ecoa como um debate milenar filosófico sobre identidade pessoal. Os pré-socráticos, por exemplo, Heráclito e Parmênides, embora não falassem de identidade no sentido moderno, mas inauguraram duas posições-limites: o fluxo interminável e a permanência absoluta. Para Heráclito, por exemplo, a mobilidade, a mudança é o constitutivo da vida, isto é, tudo flui num constante de vir. Já em Parmênides, o Ser é ou o não-ser não é. O ser é uno e indivisível, isto é, a estabilidade permanente precisa que algo não se altere jamais.

Portanto, entre mudança e permanência, as publicações de minhas mais variadas fotos no Instragram parecem confirmar Heráclito, enquanto a biografia fixada no perfil faz coro ao que dizia Parmênides. Mas o dilema da identidade acerca da mudança ou não de quem sou, tenta chegar ao século XVII com John Locke quando tentou resolver o impasse dizendo que ser a mesma pessoa é lembrar-se dos próprios atos, ou seja, pela memória posso chegar ao que sou enquanto identidade fixa, minha conta online reforça isso todos os dias: sensação de que àquele ser continua. No entanto, Locke admite um ponto frágil: se a memória falha, a identidade vacila. E assim, vivemos isso na medida que perdemos senhas, fotos ou histórias arquivadas em nuvens: partes de mim simplesmente desaparecem como arquivos que foram corrompidos.

Mas conhecendo a obra de grande filósofo, ensaista e historiador do século XVIII – David Hume, fico a pensar se não seriamos somente um feixe de percepções, um carrossel de sensações, não uma substancia fixa ou essência imutável. A identidade, para ele seria uma série de impressões e ideias que se sucederiam ao longo do tempo. Ou seja, não há um “eu” permanente, mas sim uma continuidade de experiencias conectadas por uma percepção habitual. Inclino-me a pensar assim como Hume, pois com as fotos postadas, vou tendo a sensação de que não sou algo parado no tempo, estático, mudo continuamente.

Porém, continuando minha odisseia de pensamento reflexivo-filosófico relembro as ideias de Immanuel Kant (Filósofo alemão do século XVIII) que enxergou aí um paradoxo. Ele disse que existe um “eu penso” transcendental que costura a colagem caótica das experiências. Não o vemos no espelho; porém, sem ele, as selfies não fariam sentido, pois ninguém poderia reuni-las sob a etiqueta minha vida. Ele não via a identidade como uma substância fixa, mas como condição de possibilidade da experiencia, ou seja, o “eu” que faz sentido das percepções.

Na contemporaneidade visito Judith Butler que nos lembra que identidade é também performatividade: somos apresentados repetindo gestos, estilos e hashtags. O avatar, a bio, o pronome no LinkedIn – é ato público que esculpe quem parecemos ser. Cada postagem confirma ou desafia papéis sociais; os comentários dos outros devolve um espelho onde nos afinamos ou nos estranhamos.

Diante de tudo isso, nessa arena social-digital trago algumas proposições acerca do dilema da identidade pessoal. Somos simultaneamente Locke (lembramos), Hume (variamos) e Kant (unificamos). Somos rio de Heráclito fluindo por entre as margens lógicas de Kant. Somos a estátua de Parmênides, mas de argila mole, redesenhada pelo toque das interações. Se é que podemos fazer alguma conclusão, podemos confirmar provisoriamente que identidade não é selo, nem espuma, mas trama. Uma teia de memórias, percepções e atos performativos que se refazem em tempo real.

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