Viajor do Tempo

Um poema sobre ancestralidade, corpo, dança e pertencimento, onde o movimento se torna memória, rito e forma de existir no mundo.

ArteLeitura breve

Vou dançando e voltando em tempos fraturados, partidos...

Meus pés tocam o vento das seivas do chão

Meu olhar vai para além daqui, alcança outros corpos,

outros espíritos, outros mundos, outras vidas.

Enquanto danço me pertenço, me acolho, me perco e me acho...

Tudo que tenho e sou vem do canto da lua,

seu brilho das noites escuras me conta histórias de minha avó,

do meu avô, dos meus ancestrais, de onde vim!

E assim sigo... meu corpo clama e eu danço.

Danço pelo contorno das árvores, pelo movimento dos rios e mares,

ao som dos bichos, pelo reflexo das cores da terra.

Sou oferenda aos Orixás e minha dança é minha graça, meu altar negro...

Nasci nas matas, vim antes de hoje, de agora... brinquei com as formigas e

com elas aprendi a arte da colaboração.

O som dos tambores acordou minha alma para esta dança híbrida, de cor

preta e bonita, com suor, sangue e potência.

Pareço mais um bicho que pensa com o nariz, com os sentidos outros.

Esta dança não é uma atividade é um forma de existir no mundo, uma

maneira de tornar-se vivo em várias dimensões e existências.

E assim sigo...

Danço...

Para libertar os cativos de si mesmo,

Para instaurar o reino dos diferentes

Para recriar os nomes, os conceitos, as coisas.

Para reencantar o mundo e os seres, com as tintas das plantas, os colares

das pedras, as vestes das águas.

(Rinardo Mesquita, abril/2016).

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