Um poema sobre presença, alteridade e escuta profunda, em que ouvir o outro se torna também um caminho de encontro consigo.
Escutar o inaudível som das palavras que rolam do teu silêncio e dos teus abraços...
Escutar os detalhes, as frases mal-acabadas, as interrupções, o timbre, a velocidade das palavras que dançam entre nós;
Escutar tua inteireza em tudo que falas, fazes, calas e sentes...
Escutar tirando de mim o pedestal de referência, escutar tomando como referência tua singular forma de ser e estar... ir além de mim para chegar em ti.
Escutar sensivelmente, porque lá no fundo mora alguém que ainda desconheço.
Um pedaço de mim em ti reverbera;
Ao te escutar, deparo-me comigo, com as estranhezas que em mim ainda não se revelaram, que se encontram ocultas, adormecidas pelas percepções parciais daquilo que pareço ser;
Escuto-te com atenção nos detalhes próprios de tua história, sem querer antecipar-me em nada; apenas um olhar e ouvido atento, disponível, entregue ao que me dizes.
Pausas, silêncios, palavras que jorram e me oferecem um pouco de si... bebo com sabor de quem nada sabe e quer apenas ficar, permanecer ali num encontro de escuta e oferta.
Escutar e sair de mim para chegar em ti... movimento necessário para uma escuta que se propõe captar um legítimo outro diferente de mim; mas que se encontram na maravilhosa arte da escuta.
Talvez não queira de mim palavras, mas apenas minha presença inteira e atenta ao que me ofereces de intimidade... e assim fico, permaneço disposto a te escutar para escultar um lindo jarro de barro feito de tuas essências.
Na arte da escuta, a verdade não é um lugar que se chega, ela está num entre-lugar, numa relação entre seres que se propõem a viver uma experiência de humilde entrega.
(MESQUITA,2021.p.208)
(Escuta-transformativa: poema criado por Rinardo Mesquita após o processo do 6º Encontro Experiencial Eco-Relacional na EEEP Rita Aguiar Barbosa em dezembro/2019)