Práticas corporais integrativas-libertadoras: experiências pedagógicas na formação docente relacional na escola.

Uma reflexão sobre o corpo como experiência relacional, espiritual e pedagógica, articulando sensibilidade, movimento e formação humana integral.

EducaçãoLeitura longa

Pensar sobre o corpo e no que ele representa é perceber sua potencialidade no processo de existir. Sua vocação é ser mais, empoderar os sentidos e percepções que passam por ele como instâncias revolucionárias. Um corpo que não se restringe simplesmente à cabeça ou às mãos para digitar, mas um corpo-total, inteiro, integrado.

Quando falamos de corpo estamos nos referindo a nós próprios. Não temos um corpo, somos um corpo em trânsito. A realidade que vivenciamos é dada numa experiência corporal, é algo coeso, um tecido único que nos constitui seres viventes. Como nos diz Yaari (2011, p. 160), “Se quisermos de fato conhecer os segredos mais complexos da realidade espiritual, é no corpo que vamos apreendê-los”.

Podemos afirmar, dessa maneira, que vamos nos espiritualizando à medida que deixamos fluir livremente nossa energia vital pelo organismo vivo, pois a espiritualidade “não ocorre sem a aceitação do corpo e suas manifestações” (CELANO, 1999, p. 68), pois corpo e espírito não são realidades distintas, separadas.

Segundo Merleau-Ponty (1992, p. 135), “Em vez de rivalizar com a espessura do mundo, a espessura do meu corpo é, ao contrário, o único meio que possuo para chegar ao âmago das coisas, fazendo-me mundo e fazendo-as carne”. Formamos um elo indissociável, mundo e corpo, ou um corpo-mundo, individual e coletivo.

O corpo não é um elemento externo, mas o próprio ser em vida, “um modo de ser-estar no mundo, um corpo que nos ocupa e nos atravessa no cotidiano” (MESQUITA, 2016, p. 39). É nossa matéria-prima existencial que nos possibilita transitar no mundo e com o mundo, sob as mais variadas formas e dimensões.

A consciência do corpo não é meramente expressão de uma razão cognitiva, mas está implicada num todo, nas subjetividades, no emocional, no espiritual, nas energias sutis que atuam em percepções sensoriais e extra-sensoriais.

Paulo Freire nos traz a ideia de um corpo consciente; ele compreende a consciência enquanto o ser humano total, que se move no mundo e com o mundo, nas relações com as pessoas. A consciência não seria uma parte dentro do homem, compartimentada, numa espera passiva de conteúdo, de informação.

Por isso, em Pedagogia do Oprimido, escrito em 1968 numa situação de exílio, Freire vem nos falar de um corpo consciente, social, político, relacional, um corpo que se expressa e pensa, deseja e ama, numa relação única, misturada.

O que acho fantástico nisso tudo é que meu corpo consciente está sendo porque faço coisas, porque atuo, porque penso. A importância do corpo é indiscutível, o corpo move-se, age, rememoriza a luta de sua libertação, o corpo afinal deseja, aponta, anuncia, protesta, se curva, se ergue, desenha e refaz o mundo. Nenhum de nós, nem tu, estamos aqui dizendo que a transformação se faz através de um corpo individual. Não porque o corpo também se constrói socialmente. Mas acontece que ele tem importância enorme. (...). Há muito sensualismo que o corpo guarda e explicita, ligado até mesmo à capacidade cognoscente. Acho um absurdo afastar o ato rigoroso de saber o mundo da capacidade apaixonada de saber. (FREIRE, 2006, p. 92).

Nesse entendimento, de acordo com Freire, não podemos separar o sujeito do pensar, do sentir, do trabalhar, do amar, do se divertir, do sofrer, do lutar, do orar, do criar. Aquilo que somos vai se construindo nas relações, nos encontros, nas mais diversas situações da vida cotidiana. Não importa, portanto, sua cor, raça, sexo, condição social, nacionalidade, espessura, tamanho, peso... são humanos que vivem sua condição existencial de ser gente e merecem todo nosso respeito, cuidado e atenção.

O corpo humano, velho ou moço, gordo ou magro, não importa de que cor, o corpo consciente, que olha as estrelas, é o corpo que escreve, é o corpo que fala, é o corpo que luta, é o corpo que ama, que odeia, é o corpo que sofre, é o corpo que morre, é o corpo que vive! Não foi rara a vez em que, pondo minha mão afetivamente no ombro de alguém, tive-a, de repente, no ar, enquanto curvando-se, o corpo tocado recusava o contato do meu” (FREIRE, 1985, p.20;28).

Do ponto de vista das civilizações orientais, por exemplo, teremos uma visão de corpo uno, como partícipe de uma inter-relação: corpo-alma-natureza e sociedade. Segundo Gonçalves (1997, p.16),

Nas civilizações orientais, as relações do homem com sua corporeidade diferem das da civilização ocidental. Com base nas tradições místicas do pensamento oriental, a experiência do corpo é vista como a chave para a experiência do mundo e para a consciência da totalidade cósmica. O conhecimento do mundo baseia-se na intuição direta da natureza das coisas, numa relação com o mundo que envolve intensamente o homem como ser corporal e sensível.

O conhecimento do indivíduo é realizado pela totalidade do ser e não apenas pela razão cognitiva. Não é o pensamento que definirá os conceitos, mas as experiências sensoriais que participam de todo um conjunto de inter-relações com o cosmo é que indicariam caminhos de apropriação dos conhecimentos.

Há aqui, no pensamento oriental, a busca da relação de um corpo em estado de complementaridade, de busca de equilíbrio dinâmico e interativo com as partes e o todo.

Todas as coisas são encaradas como partes interdependentes e inseparáveis do todo cósmico; em outras palavras, como manifestações diversas da mesma realidade última. As tradições orientais referem-se constantemente a essa realidade última, indivisível, que se manifesta em todas as coisas e da qual todas as coisas são partes componentes. (CAPRA, 2011, p.139).

O corpo aqui está em relação constante com o universo, uma mente e um corpo integrados dentro de uma perspectiva Eco-Relacional de universo e cosmo. Nessa direção encontramos a correspondência com os sentidos do corpo dentro dos conceitos de Figueiredo (2007), para quem compreende esse corpo relacional, indivisível, multidimensional, implicado no sentir, no pensar, no agir e no intuir.

Esse princípio corrobora com a visão do africano tradicional que percebe a inseparabilidade do corpo e do cosmo num tecido de correspondências e interações dinâmicas. Sob essa perspectiva, o corpo é comunitário e participa de uma cadeia ou teia integrativa com o universo ecológico, com os ancestrais, com a comunidade, fundamentando, assim, um princípio de coexistência.

Assim, estabelecer processos de experiências pedagógicas de formação humana e relacional no contexto da formação docente requer um exercício de pensar o ser em sua multidimensionalidade: espiritual, cognitiva, afetiva, sensitiva, sensório-motora, psicossocial, bem como em reconhecer também o mundo nessa multidimensionalidade: social, política, ética, ecológica, cultural, física e espiritual.

Pois como nos diz Freire (1996, p.45)

O que importa, na formação docente, não é a repetição mecânica do gesto, este ou aquele, mas a compreensão do valor dos sentimentos, das emoções, dos desejos, da insegurança a ser superada, do medo que, ao ser ‘educado’, vai gerando a coragem. Nenhuma formação docente verdadeira pode fazer-se alheada, de um lado, do exercício da criticidade que implica a promoção da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica, e de outro, sem o reconhecimento do valor das emoções, da sensibilidade, da afetividade, da intuição ou adivinhação.

No entanto, isso não implica em que se deixe de lado a dimensão técnico-científica, a rigorosidade metódica, o ensino dos conteúdos como ação docente. O que se pretende é um alargamento da visão de formação humana em Educação, processos de humanização, politização, reflexão, amorosidade numa dinâmica popular, freireana, eco-relacionada, tendo a relação como eixo fundamental da práxis educativa e tendo a espiritualidade como gênese ontológica de constituição de nosso ser, numa proposição formativa integral.

As práticas corporais integrativas-libertadoras são, portanto, uma composição de Experiências Pedagógicas Dialógicas, na medida em que assumimos o corpo enquanto forma de ser-pensar-falar-sentir-expressar na busca de sua integração consigo, com o outro e com o universo, em relação e em movimento.

Quando nos movemos espontaneamente, sentimos nossa abundância interior em cada gesto - sentimos a vida plena. Ele é a propriedade básica e mais geral da vida, junto com a diversidade e a integração. Quando nos movemos temos a expressão mais genuína da vida acontecendo em nós na forma de gesto ou dança, que é o movimento do ser visível, estético, expressivo, capaz de autonomia e vinculação. Olhar e ser olhado, abraçar e ser abraçado, acariciar e ser acariciado, caminhar, saltar, correr, deitar-se no chão, mover-se com potência e suavidade, aproximar-se e afastar-se. Tudo isso é vida que vem de muito longe. (CAVALCANTE; GÓIS, 2015, p.116-117).

Dessa maneira, o movimento do corpo por meio das práticas corporais é proporcionar a integração. Integrar é uma arte de estabelecer conexão, aliando diversos componentes e dimensões do ser humano: razão, emoção, masculino, feminino, objetividade, subjetividade, corpo, mente, espírito... trata-se, portanto, de “interagir com os mundos alheios e entendermos o mundo como plenitude de eus-nós, nós persona, nós outro, nós ser social e nós natureza em relação”. (FIGUEIREDO, 2018, p. 51).

Educar nessa perspectiva é permitir que, por meio das práticas corporais integrativas-libertadoras, possamos avançar no caminho do amor, da paz, da inteireza e da sabedoria. Pois como nos diz Moraes (2003, p.127), “Educar, reconhecendo a totalidade do ser humano, é a forma de nós, educadores, fazermos justiça ao todo que somos, lembrando que necessitamos, mais do que nunca, conspirar a favor da inteireza humana”.

O convite então é do integrar para libertar, uma atitude propositiva que vislumbra a transformação pessoal e coletiva.

O corpo não mente. Mais que isso, ele conta muitas estórias e em cada uma delas há um sentido a descobrir. Como o significado dos acontecimentos, das doenças ou do prazer que anima algumas de suas partes. O corpo é nossa memória mais arcaica. Nele, nada é esquecido. Cada acontecimento vivido, particularmente na primeira infância e também na vida adulta, deixa no corpo sua marca profunda. (LELOUP, 2015, p. 15).

Assim, o corpo enquanto experiência em vida diz muito do que somos, sentimos e pensamos; por ele podemos tocar em recantos escondidos, negados ou reprimidos de nós mesmos. É por meio dele que podemos experimentar e experienciar a própria noção de espiritualidade, pois vislumbramos essa noção de corpo enquanto “um todo orgânico, um tecido social único conectado à energia comunitária” (MESQUITA, 2016, p. 105) e a todos os seres viventes nestas e em outras esferas de existência.

As Práticas Corporais Integrativas-libertadoras, mais do que simples atividades, são um modo de fazer educação formativa, uma experiência que une vivência prática, escuta, teoria, compartilhamento de experiências pedagógicas, música, poesia, exibição de filmes, documentários, passeios, debates, lanche compartilhado, atividades corporais por meio da Biodança, contato-improvisão, jogos teatrais, etc.

Com isso, criamos uma ambiência livre que permite o encontro com a arte, a criatividade, a imaginação criativa, a respiração de si e do grupo, contato-improvisação dos corpos, livre expressão do ser, ampliação dos mecanismos de percepção, aprofundamento dos aspectos sensoriais e físicos, deixando fluir o potencial de vida de cada um e cada uma, numa dimensão coletiva, comunitária e individual.

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