Espiritualidade Eco-Relacional: entre saberes, poéticas e experiências.

Uma reflexão sobre espiritualidade como experiência relacional, ancestral e plural, articulando cuidado, transcendência, corpo, natureza e educação.

Espiritualidade Eco-RelacionalLeitura longa

Queremos aqui trazer a temática da espiritualidade em sentido amplo, pois seu termo também é polissêmico, tem relação com o significado da vida e à razão do próprio ato de viver, não está necessariamente ligado a um tipo específico de crença ou religião. É antes de mais nada, sentido de presença e pertença a algo que nos alarga a consciência, a partir da conexão consigo, com o outro, a natureza e o cosmo.

Para Oliveira (2006), espiritualidade é compreendida como formas de saber e elaboração simbólica das culturas e das pessoas, assim também como o modo que organizam suas subjetividades, não se reduz, portanto, ao seguimento formal a determinada religião ou crença, embora envolva também uma escolha específica para um tipo de crença.

Ao tratarmos do tema espiritualidade, não queremos aqui fazer qualquer tipo de doutrinação ou apologia religiosa,

Não nos interessa qualquer volta ao passado religioso e nem sequer interessa-nos a preservação do que hoje ainda encontramos como sobrevivência das crenças preconceituosas do pretérito; desejamos ardentemente caminhar para o século XXI com uma espiritualidade e uma concepção de Deus ‘para hoje e para amanhã’, na companhia de um Deus cuja presença não se restrinja aos templos, mas que está no profundo de cada um de nós seres humanos. (MORAIS, 2010, p.121).

Isto é, a pessoa pode desenvolver uma espiritualidade dentro de uma religião ou não. Apesar de sua inteira importância na construção cultural e social dos povos, a religião não é condição necessária para se desenvolver alguma experiência ou vivência espiritual. O sagrado, a mística ou mesmo o termo Deus são experiências que estão para além de qualquer doutrina específica.

Nesta direção, evidenciamos aqui o conceito de Deus não como algo que passe necessariamente somente pela via cognitiva, mas por uma experiência, um constitutivo ontológico na estruturação do ser humano, pois como afirma o professor Herculano Pires,

O problema da experiência de Deus poderia ser resolvido com um mínimo de reflexão. Se Deus está em nós, e por isso somos deuses em potência, segundo a própria expressão evangélica, por que necessitamos de uma busca artificial de Deus para termos a experiência da sua realidade? Se fomos criados por Deus e se Deus pôs em nós a sua marca, como afirmou Descartes – a ideia de Deus em nós, que é inata – já não trazemos, ao nascer, a experiência de Deus? (PIRES, 1989, p. 25).

Para além de qualquer apreensão religiosa, lembramos também aqui do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que numa atitude de profunda crítica à metafísica ocidental, decretou a morte de Deus. Mas um Deus construído como imagem pelas religiões e culturas. “Não é que Deus morre. Ele foi morto pelos seres humanos que perderam a memória de sua transcendência. Mas ele pode ressuscitar a partir do mergulho do ser humano nesta dimensão. Aí emerge o Deus do mistério, o Inefável.” (BOFF, 2009, p. 44). É uma experiência divina que nos perpassa sem precisar de uma religação, pois para o autor, já estamos imersos e mesclados numa experiência totalizante.

O mistério da qual acreditamos não está ordem do sobrenatural, do que não pode ser tocado, mas que está em nós como possibilidade de sentir-pensar, assim como nos diz o bispo anglicano John Shelby Spong, numa belíssima obra intitulada: Um novo cristianismo para um mundo novo, a fé além dos dogmas:

Esse Deus não é uma entidade sobrenatural que cavalga no tempo e no espaço para socorrer os desaventurados. Esse Deus é a própria fonte da vida, a fonte do amor e a Base da Existência. O Deus teísta de ontem é um símbolo da essência, da existência de vida que compartilhamos. Deus é vida, então adora-se esse Deus vivendo plenamente. Deus é amor, então adora-se esse Deus amando generosamente. Deus é existir, então adora-se esse Deus tendo a coragem de ser tudo o que puder. Resumindo, é no ato de viver, de amar e de existir/ser que conseguiremos ir além dos limites de nossa existência e conhecer a transcendência, o transpessoal, a eternidade. [...] Existe uma realidade, denominada por nós como Deus, que é a fonte da vida que vivemos, o poder do amor que compartilhamos, a Base da Existência que nos convida para sermos o máximo possível. (SPONG, 2006, p. 89-90).

Essa compreensão profunda da experiência de Deus nos faz entender que “para Ele nunca vamos, dele nunca saímos, porque estamos sempre dentro dele” (BOFF, 2009, p. 43). Neste sentido, ao falar de Deus queremos aqui deixar claro sua natureza viva, inerente a todo ser humano e não humano, não aprisionado ou circunscrito a qualquer arranjo existencial de espaço-tempo. Mesmo que as religiões criem suas formas, ritos e doutrinas, elas não podem jamais determinar uma única maneira de se experienciar Deus, a não ser a partir de seus próprios princípios, buscas e achados.

Como nos afirma Boff (2009, p. 55)

Cada religião possui sua identidade e o seu jeito próprio de dizer e celebrar a experiência mística. Mas como Deus não cabe em nenhuma cabeça, pois desborda de todas elas, podemos sempre acrescentar algo a fim de melhor captá-lo e traduzi-lo para a comunicação humana. Por isso, as religiões não podem ser dogmáticas e sistemas fechados. Quando isso ocorre, surge o fundamentalismo, doença frequente das religiões, como em setores importantes do cristianismo e do islamismo.

Para o autor, espiritualidade está em viver mediante uma dinâmica profunda da vida, em relação com os seres que habitam o planeta, o cosmo e outras esferas de existência. Ela só pode ser pensada em e na relação, de forma externa, mas também de modo interno: com um eu profundo, o mistério que nos habita e que podemos definir como Deus. Aqui mistério não é oposto ao ato do que pode ser conhecido, mas um paradoxo, uma razão ilimitada, pois “por mais que conheçamos uma realidade, jamais se esgota nossa capacidade de conhecê-la mais e mais. E isso indefinidamente”. (BOFF, 2009, p. 192), constituindo, portanto, uma dimensão de profundidade e encantamento.

Aqui encontramos em Leonardo Boff, doutor em Teologia e Filosofia, pesquisador e um dos expoentes da Teologia da Libertação1 no Brasil, uma espiritualidade teísta, que considera a existência de um ser supremo e profundo, “chamam-no de Javé, de Alá, de Shiva, de Brahma, de Tao, de Olorum. Numa palavra, de Deus.” (BOFF, 2009, p.41). Assim, independente da vivência específica em uma expressão de fé ou religiosidade, o autor aponta o ser humano como integrado a uma realidade de transcendência, um projeto infinito que desborda por todos os lados.

Este é o pensamento radical, a experiência de fundo que subjaz a todos os caminhos espirituais e a todas as religiões e que representa a secreta Energia que move para cima e para frente a existência humana. Esta energia funda a capacidade permanente de transcendência do ser humano. Efetivamente, ele somente encontra um correlato a ele, em Deus mesmo, fonte de todo ser. Aí então repousa e encontra o lar de sua identidade. (BOFF, 2009, p. 43).

Uma transcendência que desloca o ser humano enquanto projeto infinito, aberto e impermanente, utópico e transgressor de interditos, capaz de amar, criar e transformar. Nesta dimensão transcendente está também sua imanência (BOFF, 2009), enraizado, finito, situado num tempo e num espaço, histórico, implicado num nó de relações. “Ele é histórico e utópico; é feito e sempre por fazer; é pulsão infinita aprisionada nos limites espaçotemporais; é a convergência dos opostos” (BOFF, 2009, p. 22).

Aqui vemos claramente que há uma espiritualidade implicada enquanto potência de vida e possibilidade de mudança, transformação, reinvenção e recriação de mundos e certezas provisórias. Vê no ser humano um agente que não se deixa enquadrar por nenhum arranjo existencial, por nenhum dogma, por nenhuma estrutura fixa de família, de escola, de igreja, de sociedade, de economia ou política.

Para Boff (2008, 2009), essa força vem de uma base ancestral, bebe das fontes originárias, de cosmovisões ancestrais africanas, indígenas e de todas as comunidades humanas ancestrais que nos antecederam.

Nessa ancestralidade entendida aqui no Brasil, cabe-nos a reflexão de que, conforme Oliveira (2012, p. 39), “se traduz numa experiência de forma cultural que, por ser experiência, é já uma ética”, uma categoria de relação “pois não há ancestralidade sem alteridade. Toda alteridade é antes uma relação, pois não se conjuga alteridade no singular. O outro é sempre alguém com o qual me confronto ou estabeleço contato” (OLIVEIRA, 2007, p.257). Ou seja, a existência é sempre coexistência, está marcada pela relação com o outro, um outro gênero, cor, outra sexualidade, outro corpo, outra nacionalidade. E esse diferente de mim, segundo Pardo (1996), é alguém absolutamente diferente, sem relação alguma com o que possa ser semelhante comigo, um outro que não pode jamais ser eu mesmo.

Coletivos humanos em encontros permanentes, numa “condição de pluralidade cósmica, singularidades permeadas e encantadas pela dinâmica da diversidade e da mutabilidade dos sentidos de pertencimento afro-indígena” (MESQUITA, 2016, p. 94), que nos permite ser quem somos, que permite nos enxergar pelas marcas dos nossos antepassados. “Um modo de estar no mundo, pautado a partir de uma ética da convivência, de inclusão e das relações com o meio ambiente e a sociobiodiversidade do planeta Terra”. (MESQUITA, 2016, p.94).

Aqui, encontramos uma espiritualidade integrada, que não faz distinção entre humano, natureza e sociedade, tudo se interpenetra, não há distinções ou dicotomias,

Tudo pode ser sujeito, tudo pode fazer parte dos processos sociais, tudo tem agência. As plantas, os animais e os objetos agem sobre as pessoas humanas, assim como os seres humanos agem sobre as plantas, os animais e os objetos. Esse caráter promove profundo respeito e reverência pela natureza que, entre outras características, é a manifestação das divindades. Por sua vez, a relação com a ancestralidade remonta ao modo como a comunidade se organiza: composta pelos que já nasceram, os que ainda não nasceram e os que já não estão mais vivos, além das divindades e tudo o que tenha agência. A ancestralidade conecta todos esses elementos, sendo o que sustenta a história. (FLOR DO NASCIMENTO, 2015, p. 47-48).

Encontramo-nos religados o tempo todo, sagrado e profano estão implicados a partir da realidade corporal. É o que nos diz Sodré (1988, p.31) quando afirma que “o indivíduo é assim, duplo: parte localiza-se no espaço invisível (orun) e parte, no corpo visível”. Convive com polaridades, bem/ mal, feminino/masculino, divino/profano, realidades justapostas vividas e experienciadas numa corporeidade dançante. Os deuses e ancestrais das religiões de matriz africana são humanos e divinos, a experiência do sagrado se dá na festa, nos ritos e na relação integrativa com a terra, com os elementos da natureza, os vegetais, minerais, águas e no homem/mulher.

Sob um ponto de vista das culturas africanas e dos povos originários, percebemos então que as vinculações humanas estão desde muito tempo interligadas, “todos os reinos da vida (mineral, vegetal e animal) encontram-se nele, conjugados a forças múltiplas e a faculdades superiores”. (BÂ HAMPATÉ, 2010, p.184). A relação homem e natureza é aqui entendida de forma única, não há separação. O homem e a mulher são a própria natureza, formam um elo indissociável. Um corpo-natureza que se materializa na grande comunidade de vida, unido às plantas, aos vegetais, ao ar, à agua, a terra, aos animais.

A terra, nesse sentido é considerada grande mãe provedora e promotora da vida e da fertilidade existencial, um superorganismo vivo e pulsante. Uma terra que emana energia e também guarda a memória dos nossos ancestrais. Como nos assegura Boff (2000, p. 72),

Pertencemos à Terra; somos filhos e filhas da Terra; Somos Terra. Daí que homem vem de húmus. Viemos da Terra e a ela voltaremos. A Terra não está à nossa frente como algo distinto de nós mesmos. Temos a Terra dentro de nós. Somos a própria Terra que na sua evolução chegou ao estágio de sentimento, de compreensão, de vontade, de responsabilidade e de veneração. Numa palavra: somos a Terra no seu momento de auto-realização e de autoconsciência.

Essa percepção de que somos Terra é matriz geradora de uma compreensão ainda no período paleolítico, de uma cultura da Terra-mãe,

A começar pela África, há alguns milhares de anos, especialmente a partir do Saara, quando era ainda uma terra verde, rica e fértil, passando por toda a bacia do Mediterrâneo, pela Índia e pela China, predominavam as divindades femininas, a Grande Mãe Negra e a Mãe-rainha. A espiritualidade era de uma profunda união cósmica e de uma conexão orgânica com todos os elementos como expressões do Todo. (BOFF, 1999, p. 77).

As instituições matriarcais eram os eixos organizadores da cultura e da sociedade. Numa matriz Matrística transcendemos às polaridades patriarcal e matriarcal, em que homens e mulheres experenciam um modo de vida centrado na cooperação não-hierárquica.

Assim, o que Boff (1999) nos propõe, é um retorno a uma atitude de experiência espiritual-política do feminino como natureza do cuidado essencial de tudo com todos, sem polarizações, disjunções ou fragmentações. Uma espiritualidade “simples e sólida, baseada na percepção do mistério do universo e do ser humano, na ética da responsabilidade, da solidariedade e da compaixão, fundada no cuidado, no valor intrínseco de cada coisa”. (BOFF, 1999, p.25).

O autor nos sugere uma espiritualidade de integração com a própria ciência, como instâncias que se complementam, se implicam.

As pessoas que se orientam pela cosmologia contemporânea mais e mais se confrontam com o planeta como um organismo imenso e complexo. Quando uma parte dele é violada, nós também sofremos. Não conhecemos apenas pela ciência, mas também por nossa consciência, pela nossa interioridade, pelas intuições, pelos sonhos, pelas experiências e projeções. (BOFF, 2008, p. 58).

É uma visão alargada do ato de conhecer, por outras vias além do cognitivo, incorporando elementos afetivos, emocionais, intuitivos, oníricos, espirituais, psicomotores e relacionais. Aqui podemos dispor de outras racionalidades para além da razão cognitiva; é a “razão enquanto inteligência em suas múltiplas formas”. (FIGUEIREDO, 2007, p. 51).

Para o professor e pesquisador Röhr (2011, p.2), espiritualidade compreende “parte fundamental e perene da humanização do ser humano”, não podendo ser vista de forma isolada da integralidade dos seres humanos. Para ele, espiritualidade não está descolada das diversas dimensões do humano, tais como: “física, sensorial, emocional, mental e espiritual” (RÖHR, 2011).

Rejeitamos, com isso, todas as posições que consideram a espiritualidade algo à parte, separada do dia-a-dia, que se pode isolar num determinado espaço ou tempo, como se pudéssemos dar conta da espiritualidade quando dedicamos determinadas horas a lugares sagrados a ela, e deixamos o resto da vida acontecer segundo as leis do profano. Nessa separação desvirtuamos tanto a espiritualidade quanto as dimensões imanentes. Podemos até afirmar que as nossas realizações nas dimensões temáticas só se tornam realmente humanas, quando incluem todas as dimensões básicas, da física até a espiritual. Como ilustração dessa observação, apontamos a filosofia dialógica de Martin Buber, que expressa de forma clara a necessidade da presença de todas essas dimensões numa relação inter-humana. Pensando na dimensão espiritual da realidade social, podemos nos lembrar da décima tese de Marx sobre Feuerbach, segundo a qual a sociedade humana é exatamente aquela em que todos socializam o que têm de mais humano. Difícil negar que isso seja um princípio espiritual. (RÖHR, 2011, p.65).

Esse conceito proposto pelo professor Röhr dialoga com o que nos diz Linhares e Oliveira (2006, p. 22-23) quando fazem uma reflexão acerca do entrelaçamento das várias dimensões da vida humana:

Mais do que nunca, Paulo Freire nos traz suas iluminuras, ao nos apontar o entrelaçamento das dimensões ética, política, pedagógica e- por que não dizer espiritual? Ao identificar a necessidade dos sonhos e da utopia, da discussão de saberes em ciência, nos estimula a perguntar: por que reduzir o humano e a ciência ao que temos concebido como materialidade? O mundo está cheio de elos e as dimensões do humano são interligadas e são interdependentes. Por exemplo, o planejamento familiar só terá êxito quando a pobreza for reduzida em âmbito mundial. O meio ambiente continuará sendo destruído enquanto os países pobres estiverem corroídos pela enorme dívida que as camadas empobrecidas estiverem. Algumas soluções viáveis são as sustentáveis, e o mundo das redes de solidariedade e de resistência política passa a ter de se tornar uma urgência. [...]. Na realidade, os fenômenos físicos e os espirituais, o mundo subjetivo e o objetivo, reiteramos, são profundamente interconectados e interdependentes.

Esse pensamento de Röhr (2011), Linhares e Oliveira (2206), encontram correspondência com as proposições das chamadas espiritualidades não-religiosas, um fenômeno, que, segundo Mariano (2014), se encontra em ampla expansão teórica e vivencial, atingindo o número de 15 milhões de brasileiros, correspondendo a 8,0% da população segundo o censo de 2010 (IBGE, 2010).

Deste modo, chamaríamos aqui de espiritualidade “não-religiosa” a um não vínculo institucional a nenhuma igreja ou denominação religiosa específica. “As espiritualidades não-religiosas resgatam a ideia de espiritualidade como patrimônio cultural e não propriedade de instituições religiosas” (MARIANO, 2014, p. 779), está aberta às mais variadas formas e expressões de manifestação da experiência espiritual e está vinculada à capacidade e possibilidade de crítica ao modus operandi dos interesses das instituições.

No entanto, quando afirmamos a expressão “não-religioso”, queremos com isso dizer que há várias classificações para o termo, podendo existir diversos subgrupos:

Sincréticos, por circular livremente em várias tradições religiosas sem estabelecer vínculo com quaisquer instituições; em trânsito religioso ou aqueles que abandonaram uma religião e ficam “sem religião” até se identificarem com uma nova confissão, podendo mesmo participar de duas ou mais confissões neste ínterim; céticos, que diz respeito a um desinteresse e desencanto em relação à instituição religiosa, podendo ser o efeito de experiências de mobilidade religiosa; agnósticos, constituídos pela recusa de uma forma nominável inteligível de Deus, ou ainda como crente apenas em Deus, dispensando demais símbolos ou doutrinas religiosas, e por fim; ateus, não somente sem religião, mas sem crença em Deus. (VILLASENOR, 2013, p. 37-60).

Assim, trazemos a contribuição para o presente estudo, de um dos expoentes dos estudos do fenômeno das espiritualidades não-religiosas, o filósofo Robert Solomon (1942-2007), que foi professor de Filosofia da Universidade do Texas, em Austin nos Estados Unidos.

Solomon (2003) vai nos trazer a contribuição acerca de uma espiritualidade naturalizada, que é uma busca por um “sentido não-religioso, não-institucional, não-teológico, não baseado em escrituras, que não seja farisaico, não seja dogmático, não seja anticiência, não seja acrítico, carola ou pervertido” (SOLOMON, 2003, p.19).

Na espiritualidade naturalizada proposta por Solomon (2003), há um interesse apaixonado pelo momento presente, pelo aqui-e-agora, pelo instante que nos permite vislumbrar poéticas existenciais necessárias e importantes na vida. “O lugar para procurar a espiritualidade, em outras palavras, é aqui mesmo, em nossas vidas e em nosso mundo, não alhures”. (SOLOMON, 2003, p.25).

Por isso, para o autor, o que vale é o reencantamento do olhar para reencantar o mundo e as nossas relações. É uma espiritualidade que pode ser encontrada num abraço sincero e amoroso, nas relações de amizade, de amor, de ternura, de afeto, de cuidado, nas manifestações de arte, mas também no conflito, nas situações de luta, de tristeza, de angústia, enfim, nas agruras humanas.

Podemos, dessa forma, afirmar que esta experiência passa pelo corpo, pelas expressões de sexualidade, de desejo, de corporalidades, do ser em suas múltiplas dimensões: emocional, psíquica, psicomotora, intuitiva, política, social e relacional.

Portanto, espiritualidade é racionalidade, pois esta implica num conjunto de experiências emocionais que ordenam nosso ser-no-mundo. A ordem do pensar, do sentir e do agir são esferas de um mesmo ser em fluxo contínuo na caminhada terrestre.

O conceito de racionalidade para o autor tem a ver “não apenas como nossa capacidade de criticar e argumentar, mas também a perspicácia da visão para apreciar a complexidade, encontrar (ou infundir) sentido na desordem e na confusão”. (SOLOMON, 2003, p. 141).

Na racionalidade encontramos correspondência com as emoções e as paixões, ela é uma sensibilidade comprometida e cultivada, mas o fato é que a modernidade elegeu a “razão” pragmática enquanto via de possibilidade única para se chegar à esfera do conhecimento, desconsiderando, portanto, outras racionalidades importantes na construção da humanidade.

O autor nos diz que “emoções e racionalidades juntas constituem a espiritualidade e nos capacitam a ter consciência de um contexto humano e global mais amplo em que todos os nossos destinos estão comprometidos e nossos mútuos interesses envolvidos”. (SOLOMON, 2003, p. 162). Assim, o emocional não é fator que está descolado da racionalidade, é antes um fator de racionalidade que possibilita uma experiência de espiritualidade e nos permite ordenar nosso ser-no-mundo.

Para Solomon (2003), a espiritualidade requer um mergulho profundo em si mesmo, “quando tenho de resumir espiritualidade naturalizada numa única expressão, ela é: o amor reflexivo à vida” (p.33). E essa reflexividade não se encontra apenas como um exercício do cérebro, condicionada apenas a uma teoria do conhecimento filosófico, mas como uma experiência de natureza ontológica, epistemológica, racional, intuitiva, contemplativa, estética, política e relacional.

No amor encontramos o fundamento de “uma nova forma de transcendência, de uma nova maneira de pensar o sentido que damos à vida” (FERRY, 2013, p. 65), de forma que ele modifica nossos conceitos sobre educação, arte, política e interação social. Encontramos aqui o amor como perspectiva de um fundamento social (MATURANA, 1998), enquanto energia mobilizadora constitutiva do humano em processo de integração relacional.

Assim como Solomon (2003), Boff (1999, p. 111), também vai nos dizer que,

O amor é um fenômeno cósmico e biológico. Ao chegar ao nível humano, ele se revela como a grande força de agregação, de simpatia, de solidariedade. As pessoas se unem e recriam pela linguagem amorosa, o sentimento de benquerença e de pertença a um mesmo destino e uma mesma caminhada histórica.

O amor é, por assim dizer, uma maneira de experienciar a dinâmica da vida como seres sociais portadores de linguagem, é a matriz geradora de sociabilidade dialógica, em permanentes interações. Pois como nos dizia Freire (2016, p. 111) “se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo”, não nos serão possíveis relações éticas, parceiras, colaborativas.

Amorosidade numa concepção freireana é consciência de vida em comunhão, em parceria, é árvore que, fincada no solo histórico da Terra, possibilita o fruto, a sombra, o oxigênio. É copa que nos permite abertura, transcendência, mas também raiz que nos deixa fincados no solo sagrado do instante histórico.

Aqui encontramos correspondência entre Robert Solomon e Paulo Freire quando nos atesta que por via do amor podemos encontrar correspondência com os outros e com o mundo, na compreensão da diversidade do legítimo outro.

Amor e Espiritualidade encontram aqui um sentido profundo de caminhos convergentes, de instâncias que nos elevam e nos deixam em estados de transcendência na imanência da vida. Não é um duplo, mas uma mesma esfera que reúne todas as potências do ser em suas múltiplas manifestações: na arte, nos processos educacionais, nas filosofias, nas religiões, nos corpos-seres enamorados, amigos e parceiros.

Seja em Robert Solomon, Leonardo Boff, Paulo Freire ou João Figueiredo, o que podemos compreender é que “sente-se a urgência de um novo ethos civilizacional que nos permitirá dar um salto de qualidade na direção de novas formas mais cooperativas de convivência” (BOFF, 1999, p. 26), com uma espiritualidade cósmica, pluriversal, transcendente-imanente, ecológica, que nos abra às emergências do novo que já se efetivam nas comunidades, nas periferias, nos grupos e organizações populares, nos centros de educação, nos movimentos sociais...

Portanto, o que vislumbramos são caminhos possíveis para o reencantamento da Educação numa perspectiva Eco-Relacional, que valoriza e privilegia os encontros sensíveis, a escuta ativa, às múltiplas inteligências, a afetividade, a solidariedade, a participação política e crítica, a diversidade de corpos, desejos e anseios, numa pedagogia da reinvenção e da ressignificação dos valores, do ensino e da aprendizagem.

Que incorpore uma Espiritualidade Transdisciplinar como modo de ser e atuar em toda comunidade de aprendizagem, possibilitando as compartilhas dos sonhos, da fé, da esperança e da razão. Urge, assim, escavarmos proposições educacionais transformadoras e revolucionárias nos diversos espaços formais e/ou não-formais de Educação, que colabore para a potencialização da inteireza humana.

Nota

Este texto foi extraído de minha tese de doutorado em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), defendida em 2021 e disponível no repositório institucional da UFC.

MESQUITA, José Rinardo Alves. Espiritualidade eco-relacional no contexto da formação docente: experiências pedagógicas dialógicas em escolas de ensino médio em tempo integral do Ceará. Orientador: João Batista de Albuquerque Figueiredo. 2021. 308 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2021.

Acesso: http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/63752

Referências

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