ESCOLAS PROTAGONISTAS: ASAS OU GAIOLAS?

Uma reflexão sobre escolas protagonistas como espaços públicos de voo, cuidado, criação e transformação social, em diálogo com Rubem Alves, Paulo Freire e António Nóvoa.

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Parafraseando Rubem Alves, há escolas que são asas e há escolas que são gaiolas; há escolas que prendem os pássaros e há outras que propõem o voo da liberdade e da criatividade. Uma escola-gaiola tem um formato pronto, acabado, e tem a função de prender a vocação potente do voo do pássaro. A essência de todo pássaro é o voo; na gaiola ele fica encurralado por entre grades e não pode exercer sua vocação ontológica de voar pelo espaço.

Numa escola-gaiola, a maior parte das atividades desenvolvidas, o currículo, o tempo pedagógico, a formação de professores(as), o intervalo, a sala de aula, o refeitório, o pátio, as áreas livres, as bibliotecas ou salas de leitura, os laboratórios de informática, as intervenções pedagógicas, as atividades complementares e tudo o mais que houver na comunidade escolar é visto como um produto intocável, destituído de reflexão e, portanto, engessado, acabado, pronto e sem capacidade de ampliação e ressignificação.

Já numa escola-asa, todos os espaços físicos, o tempo pedagógico, o currículo, as intervenções de aprendizagem, a formação de professores(as) e as atividades complementares estão abertos ao voo, ao poder da criatividade, da inovação e da cooperação. Sua premissa fundante é a potência da aprendizagem, o protagonismo do(a) estudante e do(a) professor(a), e a escola como comunidade de aprendizagem capaz de dialogar, estabelecer parcerias e cultivar relações dialógicas entre os diversos sujeitos da instituição escolar e seu entorno.

O que a gaiola deseja, no fundo, é prender e segurar o canto dos pássaros num determinado espaço circunscrito, como vitrine de encanto e beleza para os que ali se aproximam. Mas a asa quer voar, debater-se no espaço sagrado da liberdade e alçar seu voo de transcendência.

Desta maneira, a partir da metáfora proposta por Rubem Alves, e também inspirado livremente nos escritos do professor e pesquisador português Dr. António Nóvoa e de Paulo Freire, teceremos algumas reflexões sobre as escolas protagonistas e suas implicações no processo de transformação social.

Mas o que são mesmo escolas protagonistas? São gaiolas ou asas?

Primeiro, vamos tecer um comentário sobre a origem do termo protagonismo. O termo vem do grego protos, principal, primeiro, e agonistes, lutador, competidor. No teatro e no cinema, tal conceito é bastante utilizado para falar do personagem principal de uma trama. No sentido figurado, protagonista é a pessoa que desempenha ou ocupa o papel principal em uma obra literária ou em determinado acontecimento.

Quando falamos de escolas protagonistas, estamos trazendo uma reflexão sobre escolas ativas, propositivas, que, atentas às emergências do tempo presente e ao contexto de sua comunidade, propõem soluções criativas às demandas da realidade. São escolas que não se prendem a velhos paradigmas que por muito tempo insistem em permear o cotidiano pedagógico de nossas instituições educativas.

As escolas protagonistas são escolas-asas, pois possibilitam o voo de seus estudantes e professores(as). São portadoras e promotoras de vida em abundância, ensaiando todos os dias as melhores condições de salvaguardar a democracia, a emancipação humana, a aprendizagem como direito fundamental, a criatividade e o livre exercício da docência e da discência em estado de interação e colaboração.

Quando nos propomos a pensar sobre a escola protagonista, queremos trazer o debate sobre o poder da escola como agente de transformação. Por isso, ela se articula e se organiza enquanto espaço social democrático e público, que compartilha bens comuns numa lógica coletiva e participativa.

Assim, somos convocados a refletir sobre as escolas "como um bem público e um bem comum" (NÓVOA, 2022, p. 14). Como bem público, porque elas não se esgotam num plano individual; são instituições centrais para a vida em sociedade. Sua lógica não é a mera reprodução social, mas a reinvenção de outra realidade, de outro mundo possível.

A escola não pode ser pensada como escola privada, pois sua lógica de existência está na capacidade de agregar e gerar o maior número possível de acesso, permanência e aprendizagem dos(as) estudantes. Como bem comum, ela é uma instituição de todos e todas: uma escola plural, diversa, que acolhe, inclui e interage com estudantes e profissionais da educação de diversas raças, cores, corpos, credos, religiões, orientações sexuais, níveis socioeconômicos e localidades.

Na escola, a diversidade aparece como um conceito que propõe o convívio dos(as) estudantes e de toda a comunidade escolar com as diferenças de classe, raça, gênero, território, religião, deficiências e orientação sexual em um mesmo contexto educativo. Assim, ela precisa estar explícita em todos os âmbitos: na composição da equipe gestora, no corpo docente, no currículo, nos materiais didáticos, no calendário e até nos murais da escola. Afinal, é pela convivência com a diversidade que os(as) estudantes passam a respeitar essas diferenças e a acolher as pessoas em suas especificidades.

Desta maneira, pensar numa escola protagonista no contexto da escola pública é trazer a experiência do bem viver comum dos povos africanos, afro-brasileiros e povos originários, inclusive e sobretudo dos nossos irmãos parentes: o povo indígena Tremembé da Barra do Mundaú de Itapipoca-CE. Na sabedoria ancestral de nossos parentes Tremembés, estamos todos integrados; somos a própria natureza em inter-relação permanente. Não é simplesmente existir, mas coexistir.

Portanto, uma escola protagonista é uma escola cidadã, coerente com a liberdade, com seu discurso humanizador, relacional e libertador. "A escola cidadã é uma escola de comunidade, de companheirismo. É uma escola de produção comum do saber e da liberdade. É uma escola que vive a experiência tensa da democracia" (FREIRE, 1996, p. 66). Assim, a escola cidadã transforma-se num espaço de construção e de novas esperanças, rumo às lutas mais amplas pela educação para todos, pelo ensino básico, público e universal, de forma que ninguém seja excluído.

Premissas para o protagonismo escolar

Teceremos, então, alguns elementos importantes para pensarmos em nossas escolas como protagonistas dentro do contexto da Rede Municipal de Ensino de Itapipoca-CE. Vamos elencar algumas premissas que nos ajudarão a refletir sobre o papel e as características do protagonismo escolar.

As proposições aqui apresentadas não surgiram aleatoriamente; foram lançadas como sementes desde o início da gestão municipal "Pra frente, pra gente!", da Prefeitura de Itapipoca. Elas foram se constituindo no processo, no chão das salas de aula das escolas da praia, serra e sertão, nos encontros de formação de professores(as), de gestores(as) escolares, nos projetos e programas desenvolvidos, nas olimpíadas escolares, nas avaliações externas e nos fóruns de diretores(as).

Assim, elencamos algumas premissas que podem ser faróis a nos guiar nesta linda trajetória de tornar nossas escolas protagonistas de seus processos de ensino e aprendizagem.

1. Contextualização

Numa escola protagonista, o olhar é atento ao contexto onde está inserida a instituição escolar. Quem são essas pessoas que participam da minha comunidade no entorno? Quem são esses(as) alunos(as)? Quem são os(as) professores(as)? Os(as) funcionários(as)? Qual é a história desta escola e desta comunidade? Quem são as pessoas mais velhas que fizeram e fazem a história desta comunidade? Quais são as potencialidades, as fragilidades, as riquezas culturais e ambientais?

Enfim, é necessário que, num processo educacional, as coisas façam sentido e tenham significado. Conhecer a realidade, construir diálogos interativos com a comunidade e ressignificar as práticas pedagógicas a partir de um olhar local é premissa fundamental na constituição de uma escola que se propõe ser protagonista.

2. Dialogicidade

Uma experiência pedagógica é uma experiência dialógica. Em Paulo Freire, o diálogo é uma experiência de profundo amor e respeito ao outro como legítimo outro. No encontro, podemos estabelecer vínculos e gerar possibilidade real de comunicação, pois é uma relação horizontal e "nasce de uma matriz crítica e gera criticidade. Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé, da confiança. Por isso, só o diálogo comunica" (FREIRE, 1967, p. 107).

O amor é fundamento da práxis libertadora em Freire e inspira uma pedagogia pautada nos valores humanos como provocadora de uma ética educacional alicerçada na esperança, no amor, na humildade, na fé e no pensar crítico. A epistemologia freireana do diálogo é amorosa e nos afirma que "não há diálogo, porém, se não há um profundo amor ao mundo e aos homens" (FREIRE, 2016, p. 110).

Nesta direção, compreendemos que um dos pressupostos para o acontecimento do diálogo enquanto dinâmica relacional é a capacidade de escuta às pessoas, uma escuta capaz de captar a essência daquilo que está sendo dito para além das palavras. Portanto, numa escola protagonista, o diálogo é condição fundamental na constituição das relações e de suas práticas pedagógicas.

3. Território de inventividade, inovação e criatividade

"Somos, cada uma(um) de nós, seres humanos incríveis, com capacidades e potenciais inimagináveis... Estamos constantemente em busca de aprimorar nossa forma de ser, sentir, pensar e fazer, em busca de explorar nosso potencial, seja como líderes, mães, pais, companheiras(os), amigas(os), cidadãs(ãos), fazendo a diferença em nossa escola, rede, cidade, país e, em especial, na causa que escolhemos: a educação" (Plataforma do Programa de Formação de Lideranças Educacionais do Centro Lemann).

A escola é um grande laboratório de práticas, pesquisas e interações. É um território fértil de experiências exitosas, propulsora de vida relacional em situação de aprendizagem permanente. É nesse locus que podem acontecer soluções diante das situações-problema.

Quando a escola está atenta ao seu contexto, tem uma rotina de acompanhamento e manutenção de um bom clima escolar; quando convida e estabelece um regime de colaboração entre os diversos segmentos da comunidade escolar, como pais, alunos(as), professores(as), funcionários(as), secretários(as) escolares e comunidade, ela consegue criar e implementar soluções criativas para diversos problemas cotidianos.

Portanto, é preciso ficar atento(a) às produções, aulas e projetos criados pelos(as) professores(as) e estudantes, pois há muita riqueza que merece ser aprofundada e compartilhada nas redes de ensino municipal, estadual e nacional.

4. Gestão compartilhada

O papel de liderança educacional não pode ser visto como uma dimensão de uma só pessoa que centraliza todas as decisões. O conjunto de responsabilidades e decisões deve ser compartilhado. Para o Programa de Formação de Lideranças Educacionais do Centro Lemann, a gestão compartilhada desenvolve processos efetivos e participativos de planejamento, realizados com base em diagnósticos e evidências, que promovem visão sistêmica, estratégica e compartilhada de valores e propósitos, focados na promoção de educação de qualidade com equidade para cada estudante.

Em escolas protagonistas há estabelecimento de metas em comum, fortalecimento de laços com a comunidade e de confiança entre os membros da comunidade escolar. Segundo Heloísa Lück, doutora em Educação pela Universidade de Columbia e diretora educacional do Centro de Desenvolvimento Humano Aplicado (Cedhap), em Curitiba, a gestão compartilhada envolve professores(as), alunos(as), funcionários(as) e responsáveis.

Para isso funcionar, é preciso que todas as pessoas envolvidas assumam e compartilhem responsabilidades nas múltiplas áreas de atuação da escola. Num contexto como esse, as pessoas têm liberdade de atuar e intervir e, por isso, sentem-se à vontade para criar e propor soluções para os diversos problemas que surgem, sempre no intuito de atingir os objetivos da organização.

5. Educador(a) e educando(a) como protagonistas

Quando olhamos para a escola, as primeiras imagens que nos vêm à cabeça são a figura do(a) educador(a) e do(a) educando(a) em sala de aula. E não está errado. Todos os elementos e sujeitos que compõem a escola, como manipuladoras de alimentos, vigias, porteiros, secretários(as) escolares, monitores(as) de apoio à aprendizagem, coordenadores(as) pedagógicos(as) e diretores(as), estão imbuídos de fortalecer o processo de ensino-aprendizagem entre educadores(as) e educandos(as).

Ou seja, na ponta e no chão da sala de aula estão os protagonistas do processo. São autores e autoras de suas histórias e processos pedagógicos. O(a) educador(a), "antes de ser um profissional que assume a atividade da docência é um ser humano que sonha, cria, sente, pensa, tem fragilidades, problemas, potências" (MESQUITA, 2023, p. 37).

Portanto, quando trazemos a imagem do(a) educador(a), é para falar de sua expressão enquanto ser humano em potencial criador, "propositor de interações, interrogações e transformações sociais" (MESQUITA, 2023, p. 37). Nessa perspectiva, fica claro que o(a) educador(a) é autor(a), pois acompanha trajetórias singulares às quais dedica atenção de pesquisador, busca recursos diversos e cria cotidianamente novas possibilidades. É isso que significa protagonismo do(a) educador(a).

E quanto aos(às) educandos(as)? São meros receptores engaiolados, presos em espaços fechados sem criatividade? São copiadores de lições de casa e apenas escutam atentamente às palavras dos(as) educadores(as)? Pelo menos não deveriam ser.

O ponto de partida é o(a) educando(a). Isto quer dizer que o currículo, os projetos pedagógicos, o tempo de aula, os espaços e a equipe responsável se organizam a partir de suas necessidades, interesses e ritmos. O(a) educando(a) é o centro de um processo que deverá levá-lo(a) ao desenvolvimento de suas inúmeras potencialidades e dimensões: cognitiva, emocional, afetiva, corporal, social e ética.

A participação em grêmios escolares, grupos de estudo, monitoria, conselhos de classe, grupos de arte-cultura e clubes de leitura são formas de engajamento desses estudantes, mas vai além disso. O protagonismo estudantil acontece quando esse(a) adolescente participa ativamente das decisões do Projeto Político Pedagógico de sua escola, quando é capaz de escolher com autonomia e responsabilidade as trajetórias de sua aprendizagem, quando pode falar e ser ouvido e compreendido pela comunidade escolar, quando pesquisa e busca descobrir soluções viáveis para a transformação de sua comunidade.

6. Escola transformadora

Para Dewey, "a educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida". Desde cedo, investir na formação de sujeitos transformadores, numa educação-processo em prol de uma educação materializada na vida e no trabalho de cada parte, é o que possibilitaria uma sociedade melhor.

Para Paulo Freire, a escola deveria ser efetivamente uma escola transformadora, pois para ele "só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros" (FREIRE, 2016, p. 81). Portanto, como seres inacabados, inconclusos, inconformados com a realidade tal como ela se impõe, não podemos simplesmente estar na escola, passar por ela e não construir já ali um projeto de sociedade mais humanizada, sustentável, democrática e participativa.

Uma escola protagonista é eminentemente uma escola antirracista, acolhedora e promotora da diversidade, politicamente engajada com os problemas sociais de sua comunidade, emancipatória, afetiva, criadora e criativa, potencialmente comprometida com uma "educação como prática da liberdade" (FREIRE, 2016, p. 81).

Para Delors (2012, p. 202), "é preciso ter coragem de pensar em escala planetária, de romper com os modelos tradicionais e mergulhar decididamente no desconhecido", fazendo da escola um espaço plural de múltiplas ideias, de onde emergem novas proposições formativas integrativas, a fim de melhor atuar e intervir no mundo.

Travessias permanentes

As escolas podem ir tecendo outros princípios e premissas fundamentais a partir de suas vivências, pois nada é acabado, estático ou pronto. Muito mais que receita, o que pretendemos é lançar luzes, reflexões e caminhos por onde gerar fluxos de travessias permanentes.

Os eixos são movimentos vivos e dinâmicos como focos emergentes para nossa rede; são constructos potentes de seres humanos em diversas situações de aprendizagem. Nesta direção, a escola como centro irradiador de protagonismo fará mover, agregar, colorir e integrar as peças deste grande mosaico da educação de Itapipoca.

Pois como nos diz Mesquita (2023, p. 278), "o espaço escolar é muito mais que a arquitetura predial, é antes de tudo, espaço de corpos, de pessoas (...) é lugar dos sonhos, da criatividade, dos encontros possíveis e da possibilidade de, no presente, construirmos um outro mundo possível".

Referências

  • DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 2012.
  • FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 5 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 62ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.
  • MESQUITA, José Rinardo Alves. Espiritualidade Eco-Relacional: entrelaçando saberes para a formação docente. Curitiba: CRV, 2023.
  • NÓVOA, António. Escolas e Professores: proteger, transformar, valorizar. Salvador: SEC/IAT, 2022.
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